Muito além do Horizonte
  Tempo.

Podemos pensar que o silencio é loucura, privação, depressão.

Viveremos sempre na necessidade dessa ponte. Ponte que liga sabe o que?

Para não sei pra onde. 

É os tempos, alguns dizem “são maus esses dias”, daqui posso pensar é apenas o tempo, nem bom nem mau só o tempo.

E aquele velho relógio de bolso, parece que sempre escuto o relógio.

Relembro um tempo que nem sei se vivi, sinto saudades daquilo que não fui, e que nunca serei.

Saudades de tempos de Silencio pelas madrugadas.

Passos.

 Medo.

Angustia.

Solidão.

 Silencio...



Escrito por Helder às 19h59
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Por não estarem distraídos - Clarice Lispector

Havia a levíssima embriaguez de andarem juntos, a alegria como quando se sente a garganta um pouco seca e se vê que por admiração se estava de boca entreaberta: eles respiravam de antemão o ar que estava à frente, e ter esta sede era a própria água deles. Andavam por ruas e ruas falando e rindo, falavam e riam para dar matéria e peso à levíssima embriaguez que era a alegria da sede deles. Por causa de carros e pessoas, às vezes se tocavam, e ao toque - a sede é a graça, mas as águas são uma beleza de escuras - e ao toque brilhava o brilho da água de les, a boca ficando um pouco mais seca de admiração. Como eles admiravam estarem juntos! Até que tudo se transformou em não. Tudo se transformou em não quando eles quiseram essa mesma alegria deles. Então a grande dança dos erros. O cerimonial das palavras desacertadas. Ele procurava e não via, ela não via que ele não vira, ela que estava ali, no entanto. No entanto ele que estava ali. Tudo errou, e havia a grande poeira das ruas, e quanto mais erravam, mais com aspereza queriam, sem um sorriso. Tudo só porque tinham prestado atenção, só porque não estavam bastante distraídos. Só porque, de súbito exigentes e duros, quiseram ter o que já tinham. Tudo porque quiseram dar um nome; porque quiseram ser, eles que eram. Foram então aprender que, não se estando distraído, o telefone não toca, e é preciso sair de casa para que a carta chegue, e quando o telefone finalmente toca, o deserto da espera já cortou os fios. Tudo, tudo por não estarem mais distraídos.



Escrito por Helder às 16h37
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  Descobri... que trabalho muito, para viver tanto.

Escrito por Helder às 19h24
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Hoje, eu não quero mais....

É isso mesmo não quero mais esse cotidiano...

Estou cansado de levar esse corpo, e nem sei lá pra onde.

Cansado do peso existencial que mais me parece uma cruz.

 

Por vezes, olho para traz e me sinto;

Vento as coisas mais leves, mas será?

Será que o homem realmente é assim,

Olhando para seu velho amigo e pensando...

 

Ah! Que saudade do tempo passado,

Ou como éramos felizes outrora.

No meu tempo! Meu filho, era muito melhor

As pessoas eram mais humanas...

 

Será mesmo que o passado sempre será melhor?

Ou nós homens lembramos apenas dos fragmentos melhores?

Nunca saberemos, mas como em um vídeo editado,

Nossas lembranças vão e vem...

 

O tempo segue rápido...

Às vezes lento...

E eu aqui na janela, e você ai...

Sem nada... Mais nada... Conseguir fazer.



Escrito por Helder às 19h24
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  Tailândia, Pará, Brasil, entre muitas aspas, ou “A Amazônia não é um Santuário”

por Waldenir Bernini Lchtenthaler, do Pará

As notícias informam pouco. Dizem as manchetes que Tailândia “virou campo de guerra”. Virou não, sempre foi!
Tailândia é um município do Estado do Pará, localizado à 260 Km de Belém. Tem 44 820 habitantes (2003) e 4476 km2. Originou-se a partir da construção da Rodovia PA-150, na segunda metade da década de 1970. Violentos conflitos agrários acompanharam a ocupação desordenada da região, demandando a intervenção do regime militar, através do Instituto de Terras do Pará, o ITERPA, que inciou uma operação de “pacificação” em 1978. Dentre os técnicos daquele Instituto estava o oficial da Polícia Militar, Tenente Pinheiro, líder do processo de “pacificação” da localidade, elevada à categoria de município pela Lei Estadual nº 5. 452, de 10 de maio de 1988. Instalado oficialmente em 1 de janeiro de 1989, o nome do novo município foi sugerido pelo tenente Pinheiro ainda durante sua campanha militar, nos anos 70. O militar comparou a luta pela terra com a situação de guerra da Tailândia, longínquo país asiático, conflagrada ao longo do ano de 1977. A aprovação foi unânime.
Conheci Tailândia. É um lugar espetacularmente deprimente. Embora fique em meio à Amazônia, ou melhor, justamente por isso, o ar de Tailândia é irrespirável. Incontáveis carvoarias queimam a “biomassa” amazônica produzindo com mão-de-obra precarizada - eufemismo para escrava - o carvão vegetal ilegal que fornecem para a cadeia produtiva do minério de ferro, piloteada pela grandiosa Vale, aliás, a nossa antiga CVRD. Mais precisamente, este carvão vai para as “guseiras” de Marabá/PA e Açailândia/MA. As guseiras não têm licença ambiental. Nem a Vale, em Carajás, nem a Usina de Tucuruí têm. Elas não precisam. Na época em que se instalaram a lei não exigia. Pelo mesmo princípio uma fazenda que utiliza trabalho escravo desde 1880 pode continuar usando, porque na época em que a atividade se iniciou a lei permitia. Mas é assim...
Paralelo, mas não justaposto, já que perfeitamente integrado ao “setor” carvoeiro está o “setor” madeireiro – “a base da economia” de Tailândia.
Mas, em que se sustenta, por sua vez, a atividade em que se baseia a economia local? Em dois pilares: 1) Na “extração ilegal” - eufemismo para roubo – de madeira de terras públicas ou das reservas legais de áreas privadas. 2) No aliciamento dos miseráveis e desvalidos sem-terra; sem-futuro; sem-esperança; sem-orientação; sem-cidadania. Estes são assediados pelos madeireiros que lhes oferecem algum dinheiro pelas madeiras existentes, quer nos assentamentos em que os joga o INCRA, quer em terras que são instados a invadir, em troca da promessa de que herdarão a área depois de “aberta”. Muitas vezes esses posseiros ou assentados acabam assassinados pelos “parceiros”, uma vez tendo cumprido sua “missão” dentro desso processo “civilizatório” liderado pelos “empresários” do “setor” madeireiro. A “sorte” dos trabalhadores envolvidos nas etapas seguintes à extração, ou seja, o corte e processamento da madeira ou sua queima, não é muito melhor. Perderão sua fonte “honesta” e “digna” de subsistência, mais cedo ou mais tarde, já que a atividade madeireira é predatória de si própria, destruindo rapidamente a fonte de recursos de que depende: a floresta.
Bom, agora você deve estar se perguntando: mas e o Ibama? E a Polícia Federal? E o Ministério Público? Esqueça: aqui ninguém é preso por roubar madeira, ninguém é preso por vender madeira roubada; ou por desmatar.
Quem paga as multas que o Ibama aplica? Ninguém. O que acontece com a madeira apreendida? Fica no pátio do madeireiro - “fiel depositário” - até que ele consiga esquentá-la e vendê-la. Neste exato momento em que você lê estas linhas milhares de metros cúbicos de madeira roubada de terras públicas continuam descendo os afluentes do Tapajós, do Amazonas e de outros rios em balsas lotadas. A PM escolta as balsas porque às vezes acontece de os moradores de Reservas Extrativistas, tentarem, coitados, deter as balsas e apreender a madeira. Mas o custo do transporte é muito alto e os órgãos públicos, as “autoridades” não têm recursos materiais e humanos para agir, caso desejem ou venham a desejar agir. A Polícia Federal de Marabá não tem sequer um helicóptero, idem para Ibama e o mesmo para os outros municípios. Faltam efetivos para que essas tentativas de impor a lei possam ser efetivas.
Já sei, você deve estar se perguntando: o que faz o “empresário” quando a madeira acaba na região? “Vamos subindo!”, respondeu-me um deles. A noção de que a Amazônia é uma fronteira leva a esse raciocínio: para continuar a expansão econômica, basta avançar a fronteira! É por isso que temos um “Programa de Aceleração do Crescimento” e não de aceleração do “ desenvolvimento”.  Para desenvolver não precisa expandir a fronteira, mas para crescer sim. Tailândia é uma imagem do presente, mas revela muito do passado e outro tanto do futuro do Pará e da Amazônia e, quem sabe, do Brasil?
As manifestações de Tailândia são respostas espetaculosas contra uma ação espetaculosa dos órgãos do Estado, para que fosse restabelecida a autoridade que realmente impera no interior Pará – a lei dos fora-da-lei. Não nos iludamos, o poder político do agrobanditismo é mais forte do que o dos amigos da floresta. Logo virão senadores da República, deputados, ministros e secretários e outros “representantes do povo” para defender os interesses desses “empresários” e os milhares de “empregos” ameaçados. Tenho medo que o presidente da República em pessoa, cercado pelos seus novos amigos, volte a discursar: “a Amazônia não é um Santuário” Na boca dele, o que isso quer dizer? Tailândia que o diga: anda mais para inferno!
“Quem nos salvará dos nossos salvadores?”

 

Waldenir (Nino) Bernini Lichtenthaler é antropólogo.



Escrito por Helder às 17h15
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Essa carta escrita para o André nosso mais que amigo irmão e hoje anjo protetor mostra como você faz falta aqui amigo!!!  Publicação no Blog da Thais Regina. Na barra de links

CARTA A ANDRÉ

 

Acabo de arrumar as coisas
Deixo uns trapos para trás
Carrego um substantivo coletivo
de oitos malas sujas e esfarrapadas
Não conheço ninguém
de lá pra onde eu vou
Não estou reclamando
só reafirmando que consigo
não há mais minhas reabugices
Encontrei um poema que voce escreveu
um dos poucos
pois não se julgava digno da arte
e te pergundo, meu caro ator
quem é que é
o que dignidade tem a ver com isso?
Detalhes cadastrais nunca nos interessaram
Sei que está fora do jogo
isso deve ser bom, não sei
mas sempre está na minha coxia,
por cima das minhas cortinas
a arranhar feltros e veludos
no verão das cidades que habitamos
Agora eu e meu próprio peso
parecemos mais engarrafados do que nunca
estamos partindo para perecer mais devagar.
Lembra da tua obra?
"Tempo tão cru
ao mesmo tempo
tão cú comigo
Mesmo que tanto tempo
esvai sem saber
o quanto de tempo
te quero e te amo" André Ricardo
Falta faz-me ser sua diva
seu demônio
sua cúmplice nos atentados
ao cotidiano cimentado.

Thais Regina


Escrito por Helder às 15h46
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Descobrimento


Abancado à escrivaninha em São Paulo
Na minha casa da rua Lopes Chaves
De supetão senti um friúme por dentro.
Fiquei trêmulo, muito comovido
Com o livro palerma olhando pra mim.

Não vê que me lembrei que lá no Norte, meu Deus!
muito longe de mim
Na escuridão ativa da noite que caiu
Um homem pálido magro de cabelo escorrendo nos olhos,
Depois de fazer uma pele com a borracha do dia,
Faz pouco se deitou, está dormindo.

Esse homem é brasileiro que nem eu.
                                        

Mário de Andrade



Escrito por Helder às 15h36
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O Elias mais conhecido como Cabelo amigo de muitos momentos e de dias tristes e felizes... assim meu amigo fico feliz pela homenagem em seu Blog que está nos meus links segue ai a publicação dele.

 

Depois de ler o último post do Helder (muito além do horizonte - link ao lado) eu coloquei uma músiquinha aqui, meu novo vício é zeca pagodinho, então a primeira faixa que toca é essa ae:

Zeca Pagodinho - Não Sou Mais Disso

Eu não sei se ela fez feitiço
Macumba ou coisa assim
Eu só sei que eu estou bem com ela
E a vida é melhor pra mim
Eu deixei de ser pé-de-cana
Eu deixei de ser vagabundo
Aumentei minha fé em Cristo
Sou bem-quisto por todo mundo

Na hora de trabalhar
Levanto sem reclamar
E antes do galo cantar
Já vou
À noite volto pro lar
Pra tomar banho e jantar
Só tomo uma no bar
Bastou

Provei pra você que eu não sou mais disso
Não perco mais o meu compromisso
Não perco mais uma noite à-toa
Não traio e nem troco a minha patroa



Escrito por Helder às 18h21
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ARAÇATUBA EM EVIDÊNCIA

Do lado de cá do muro
não há amigos
Do lado de cá do muro
o sol é sempre mais forte
e derrete todo o tipo de inteligência ou resquício disso
Do lado de cá do muro
as músicas são piores
que as do Demo Sul no noroeste paranaense
Do lado de cá do muro
nem silêncio nem tremor
Do lado de cá do muro
os brechós são péssimos
lojas são bregas e caras
Do lado de cá do muro
os cigarros são constantes e
o câncer certeiro
Do lado de cá do muro
as pombas são mais gordas e carnívoras
os vegetais estão mortos
as plantações são latinfundíos canavieiros
Do lado de cá do muro
não há transporte público
que compense qualquer menção
e ninguém se importa
Do lado de cá do muro
não se tem o que dizer
com raras excessões
e os bares são mónólogos curtos
 
 
Thais Regina


Escrito por Helder às 17h56
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Gramática sem Sentimento
Encontro palavras perdidas em lugares quaisquer
A junção das palavras certas forma frases significativas
E seus sinônimos e antônimos são escolhidos para dar direção
A classificação dos adjetivos é feita cuidadosamente com a esperança de elevar a qualidade
O sentimento flexiona conforme o numero, gênero e grau.
Adequar o desenvolvimento, fica confuso ou começa dar sentido
Nem sempre o começo é o que começa às vezes pode ser o fim ou o meio
As palavras são modificadas para melhor sincronia e ter maior precisão no entendimento.
Também discordam entre si, não havendo sinergia entre elas.
Pode às vezes não ter fundamento, pois nem tudo pode ser explicado.
 As palavras são as mesmas para quem escreve e para quem lê
Mas pode ser compreendida de varias formas E é assim que um amontoado de letras, palavras,

frases se torna um texto e anuncia minhas ansiedades.

Marcelo Fernandes



Escrito por Helder às 17h19
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Tudo quanto penso
 
     Tudo quanto penso,
     Tudo quanto sou
     É um deserto imenso
     Onde nem eu estou. 

     Extensão parada
     Sem nada a estar ali,
     Areia peneirada
     Vou dar-lhe a ferroada
     Da vida que vivi. 

[...] 

          Fernando Pessoa, 18-3-1935 

 
Alberto Caeiro
 
Não Basta
 
Não basta abrir a janela
Para ver os campos e o rio.
Não é bastante não ser cego
Para ver as árvores e as flores.
É preciso também não ter filosofia nenhuma.
Com filosofia não há árvores: há idéias apenas.
Há só cada um de nós, como uma cave.
Há só uma janela fechada, e todo o mundo lá fora;
E um sonho do que se poderia ver se a janela se abrisse,
Que nunca é o que se vê quando se abre a janela.
 
 
Ricardo Reis


Feliz Aquele

Feliz aquele a quem a vida grata Concedeu que dos deuses se lembrasse E visse como eles Estas terrenas coisas onde mora Um reflexo mortal da imortal vida. Feliz, que quando a hora tributária Transpor seu átrio por que a Parca corte O fio fiado até ao fim, Gozar poderá o alto prêmio De errar no Averno grato abrigo Da convivência. Mas aquele que quer Cristo antepor Aos mais antigos Deuses que no Olimpo Seguiram a Saturno — O seu blasfemo ser abandonado Na fria expiação — até que os Deuses De quem se esqueceu deles se recordem — Erra, sombra inquieta, incertamente, Nem a viúva lhe põe na boca O óbolo a Caronte grato, E sobre o seu corpo insepulto Não deita terra o viandante.

 

 

 

Álvaro de Campos
 
Grandes
 
 Grandes são os desertos, e tudo é deserto. 
 Não são algumas toneladas de pedras ou tijolos ao alto 
 Que disfarçam o solo, o tal solo que é tudo. 
 Grandes são os desertos e as almas desertas e grandes 
 Desertas porque não passa por elas senão elas mesmas, 
 Grandes porque de ali se vê tudo, e tudo morreu. 

 Grandes são os desertos, minha alma! 
 Grandes são os desertos. 

 Não tirei bilhete para a vida, 
 Errei a porta do sentimento, 
 Não houve vontade ou ocasião que eu não perdesse. 
 Hoje não me resta, em vésperas de viagem, 
 Com a mala aberta esperando a arrumação adiada, 
 Sentado na cadeira em companhia com as camisas que não cabem, 
 Hoje não me resta (à parte o incômodo de estar assim sentado) 
 Senão saber isto: 
 Grandes são os desertos, e tudo é deserto. 
 Grande é a vida, e não vale a pena haver vida, 

 Arrumo melhor a mala com os olhos de pensar em arrumar 
 Que com arrumação das mãos factícias (e creio que digo bem) 
 Acendo o cigarro para adiar a viagem, 
 Para adiar todas as viagens. 
 Para adiar o universo inteiro. 

 Volta amanhã, realidade! 
 Basta por hoje, gentes! 
 Adia-te, presente absoluto! 
 Mais vale não ser que ser assim. 

 Comprem chocolates à criança a quem sucedi por erro, 
 E tirem a tabuleta porque amanhã é infinito. 

 Mas tenho que arrumar mala, 
 Tenho por força que arrumar a mala, 
 A mala. 

 Não posso levar as camisas na hipótese e a mala na razão. 
 Sim, toda a vida tenho tido que arrumar a mala. 
 Mas também, toda a vida, tenho ficado sentado sobre o canto das camisas empilhadas, 
 A ruminar, como um boi que não chegou a Ápis, destino. 

 Tenho que arrumar a mala de ser. 
 Tenho que existir a arrumar malas. 
 A cinza do cigarro cai sobre a camisa de cima do monte. 
 Olho para o lado, verifico que estou a dormir. 
 Sei só que tenho que arrumar a mala, 
 E que os desertos são grandes e tudo é deserto, 
 E qualquer parábola a respeito disto, mas dessa é que já me esqueci. 

 Ergo-me de repente todos os Césares.   
 Vou definitivamente arrumar a mala.   
 Arre, hei de arrumá-la e fechá-la;  
 Hei de vê-la levar de aqui, 
 Hei de existir independentemente dela. 

 Grandes são os desertos e tudo é deserto, 
 Salvo erro, naturalmente. 
 Pobre da alma humana com oásis só no deserto ao lado! 

 Mais vale arrumar a mala. 
 Fim.



Escrito por Helder às 19h24
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  "Só de sacanagem"

 

Elisa Lucinda

Meu coração está aos pulos!
Quantas vezes minha esperança será posta à prova? Tudo isso que está aí no ar: malas, cuecas que voam entupidas de dinheiro.

Do meu dinheiro, do nosso dinheiro, Que reservamos duramente para educar os meninos mais pobres que nós. Para cuidar gratuitamente da saúde deles e dos seus pais. Esse dinheiro viaja na bagagem da impunidade e eu não posso mais.

Quantas vezes minha esperança vai esperar no cais? É certo que tempos difíceis existem para aperfeiçoar o aprendiz. Mas não é certo que a mentira dos maus brasileiros venha quebrar no nosso nariz.

Meu coração tá no escuro. A luz é simples, regada ao conselho simples de meu pai, minha mãe, minha avó E dos justos que os precederam: “Não roubarás”. “Devolva o lápis do coleguinha”. “Esse apontador não é seu, minha filha”.

Pois bem, se mexeram comigo, Com a velha e fiel fé do meu povo sofrido, Então agora eu vou sacanear: Mais honesta ainda vou ficar!

Só de sacanagem! Dirão: “Deixa de ser boba, desde Cabral que aqui todo o mundo rouba” E eu vou dizer: “Não importa, será esse o meu carnaval, vou confiar mais e outra vez”. Eu, meu irmão, meu filho e meus amigos. Vamos pagar limpo a quem a gente deve e receber limpo do nosso freguês.

Com o tempo a gente consegue ser livre, ético e o escambau. Dirão: “É inútil, todo o mundo aqui é corrupto, desde o primeiro homem que veio de Portugal”. E eu direi: “Não admito, minha esperança é imortal”. E eu repito: “Ouviram? IMORTAL!”

Sei que não dá para mudar o começo Mas, se a gente quiser, Vai dar para mudar o final!



Escrito por Helder às 15h56
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O AMOR E O OUTRO

Não amo
............... melhor
nem pior
do que ninguém.

Do meu jeito amo.
Ora esquisito, ora fogoso,
às vezes aflito
ou ensandecido de gozo.
Já amei
...............até com nojo.

Coisas fabulosas
acontecem-me no leito. Nem sempre
de mim dependem, confesso.
O corpo do outro
é que é sempre surpreendente.

Affonso Romano de Sant'Anna



Escrito por Helder às 09h56
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  "Eu escrevo sem esperança de que o que eu escrevo altere qualquer coisa. Não altera em nada... Porque no fundo a gente não está querendo alterar as coisas. A gente está querendo desabrochar de um modo ou de outro..."



Escrito por Helder às 09h52
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  Namorados públicos

Da mesma forma que os monumentos históricos ou artísticos, as belezas
naturais, os bailes e cafés, os parques e jardins - os casais de namorados
são coisa que pertencem ao patrimônio de uma cidade. Uma cidade sem
namorados públicos não é uma verdadeira cidade. Os cicerones de Paris
costumam mostrá-los aos turistas, inteiramente despreocupados em suas
ternuras, como típicas curiosidades locais. No Hyde Park, em Londres, é
possível vê-los às centenas, sobre o gramado esmeralda desse parque
inexcedível como se estivessem em casa. O transeunte margeia beijos
intermináveis, abraços infinitos, olhares abissais, namorados que lêem
romances, namorados que dormem, namorados que brigam, a um passo uns
dos outros, perfeitamente indiferentes ao que lhes vai em torno, - e o que
é formidável - guardados da curiosidade, ou malícia alheias, por um
passante constable, cuja função é zelar pela perfeita consecução de seus
carinhos, com uma imparticipação e fidelidade dignas de todos os aplausos. É
claro que os namorados não abusam. Mas nessa questão de carinhos de superfície
eles se permitem um uso inumerável. Estrafegam-se em beijos que fariam a inveja
de John Gilbert ao tempo da sua paixão por Greta Garbo. Dão-se abraços de
não se saber mais quem é o outro. Fazem-se cafunés maravilhosos,
esfregam-se os narizes, acarinham-se os rostos, enfim: tudo isso que faz a deliciosa
cozinha dos que se amam e que vem sendo a mesma desde os tempos mais
recuados no tempo.
Ninguém pode dizer que o Rio não seja uma cidade de namorados: ela o é.
Seria difícil, aliás, compreender-se uma cidade tão pródiga em beleza,
sem namorados. Mas são namorados, meu Deus, ou tão ousados ou tão tímidos
que parecem uma contrafação da natureza humana diante da Natureza. Grande
culpada disso foi, até certo tempo, a nossa polícia de costumes, que
arrolava todas as carícias de namorados dentro de um mesmo código
moral, chegando até ao abuso de prender gente casada que saía para namorar
fora de casa. Não. Há carícias e carícias. Que mal existe em se beijarem os
namorados em praça pública ou nos cantos de rua? Em que uma coisa
dessas ofende a moral? Por que não se poderão eles abraçar ternamente, quando
tiverem vontade? Pois parece incrível: outro dia um amigo meu contou
que foi "apitado" várias vezes por um guarda do Jardim Botânico, por estar
dando um "peguinha" na namorada. De fato: é justo, mais do que justo, que se
moralizem os costumes. Nada mais certo. Mas perseguir os namorados, da
mesma forma que arrancar as plantas dos parques, ou maltratar os animais, é
indício de mau caráter. Que os namorados se beijem à vontade nesta
linda Rio de Janeiro. Nada há de mal no beijo dos namorados, como no amor dos
pássaros. Deixai-os nos seus parques, nas suas ruas escuras, nos seus
portões de casa. Deixai-os namorar, Senhor Prefeito, Senhor Diretor do
Jardim Botânico, deixai-os namorar, porque eles têm cada dia menos
lugares onde ir esconder seus anseios. Deixai-os se beijarem à vontade, porque
o que em seus beijos irrita os burgueses moralizantes é justamente essa
liberdade, essa beleza, essa poesia, esse vôo que há num beijo de amor. Tréguas
aos namorados!

in Para viver um grande amor (crônicas e poemas)
in Poesia completa e prosa: "Para viver um grande amor



Escrito por Helder às 16h27
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